As lições mais valiosas no desenvolvimento de software raramente são encontradas em documentações oficiais. Elas surgem da experiência real. Eu já passei minha cota de noites encarando o depurador às 2 da manhã, tentando entender por que um código que parecia perfeito em teoria estava derrubando a produção. Esse sentimento de lutar contra códigos legados confusos e "bugs impossíveis" é o que molda um arquiteto.
No ecossistema .NET, a transição para o nível sênior exige mais do que dominar a sintaxe do C#. Requer uma compreensão profunda de como construir sistemas resilientes e escaláveis. As lições a seguir não vêm de manuais teóricos, mas das trincheiras, focadas em elevar seu nível técnico de forma pragmática.
1. O Poder (e o Erro) da Injeção de Dependência
A Injeção de Dependência (DI) é um pilar do .NET moderno, mas muitos desenvolvedores a tratam apenas como "passar interfaces no construtor". O erro fundamental é ignorar o impacto arquitetural: quando você instancia dependências diretamente, você viola o Princípio do Aberto/Fechado (Open/Closed Principle), tornando seu código rígido e impossível de testar.
Código Ruim (Acoplamento Forte):
public class OrderService
{
private readonly EmailService _emailService;
public OrderService()
{
_emailService = new EmailService(); // Erro: Acoplamento direto
}
public void ProcessOrder()
{
_emailService.SendConfirmation();
}
}
Código Melhor (Utilizando DI e Abstração):
public class OrderService
{
private readonly IEmailService _emailService;
public OrderService(IEmailService emailService) // Injeção via interface
{
_emailService = emailService;
}
public void ProcessOrder()
{
_emailService.SendConfirmation();
}
}A DI não é estética; ela é a base para a escalabilidade. Ao registrar seus serviços no container (AddScoped, AddTransient), você ganha a flexibilidade de trocar implementações sem tocar na lógica de negócio, essencial para testes unitários e evolução do sistema.
2. Programação Assíncrona: O Perigo do Bloqueio de Threads
O uso de async/await é obrigatório para escalabilidade, mas o uso incorreto é uma das maiores causas de gargalos e deadlocks. Um erro clássico de quem está saindo do nível júnior é usar .Result ou .Wait() em métodos assíncronos. Isso bloqueia a thread atual e pode causar o esgotamento do Thread Pool sob alta carga.
Como arquiteto, você deve se atentar a dois pontos cruciais que os tutoriais ignoram:
- ConfigureAwait(false): Se você está desenvolvendo uma biblioteca (library code), use sempre
ConfigureAwait(false). Isso evita que a tarefa tente retornar ao contexto de sincronização original, melhorando a performance e evitando deadlocks em ambientes não-UI. - Overhead do Async: Não torne tudo
asyncpor padrão. Para tarefas puramente CPU-bound (cálculos matemáticos simples), o uso deTask.FromResultou transformar o método em assíncrono adiciona um overhead de gerenciamento de estado desnecessário. Se não há I/O, mantenha síncrono.
3. Entity Framework Core: Performance Além do Básico
O EF Core é um ORM poderoso, mas pode destruir a performance se você não entender como ele traduz LINQ para SQL. O problema de N+1 queries é o assassino silencioso: ele ocorre quando você carrega uma lista de entidades e, dentro de um loop, acessa uma propriedade de navegação que não foi carregada, disparando uma nova consulta ao banco para cada item da lista.
Para evitar isso, use o Eager Loading com .Include(). Além disso, para operações de apenas leitura, o método .AsNoTracking() é obrigatório; ele desabilita o cache de rastreamento do EF, reduzindo drasticamente o consumo de memória.
Dica de Sênior: A performance do banco não depende apenas do C#. Garanta que colunas frequentemente filtradas ou ordenadas, como Email ou CreatedAt, possuam índices adequados no banco de dados.
"O EF Core é um ORM poderoso, mas é essencial usá-lo de forma inteligente. Busque sempre apenas os dados necessários."
4. Tokens de Cancelamento: O Herói Esquecido da Eficiência
Ignorar o CancellationToken é um desperdício de recursos. Imagine uma consulta pesada ao banco de dados que leva 10 segundos. Se o usuário cancelar a requisição ou fechar o navegador após 2 segundos, por que continuar processando?
Ao passar o token do endpoint da API até o método final do repositório, você permite que o .NET interrompa a execução imediatamente.
Exemplo Prático na API:
[HttpGet("long-task")]
public async Task<IActionResult> LongRunningTask(CancellationToken ct)
{
try
{
var data = await _service.GetDataAsync(ct);
return Ok(data);
}
catch (TaskCanceledException)
{
// Pro-tip: Retornar 499 (Client Closed Request)
return StatusCode(499, "O cliente cancelou a requisição.");
}
}
Essa prática protege o servidor de processos "fantasmas" e melhora drasticamente a saúde do sistema sob carga.
5. Estratégia de Log: Qualidade sobre Quantidade
Logar "tudo" no nível Information é tão ruim quanto não logar nada. O excesso de ruído dificulta a identificação de falhas reais. A senioridade aqui se prova com a adoção de Logs Estruturados.
Em vez de logar strings puras, use bibliotecas como o Serilog para gerar logs em formato JSON. Isso permite que você faça buscas avançadas em ferramentas como CloudWatch ou Elastic Stack, filtrando por UserId, CorrelationId ou OrderId de forma instantânea, em vez de fazer buscas textuais ineficientes.
Pense estrategicamente: "Logue tudo o que importa, não tudo o que você consegue."
6. Resiliência com Polly e Microsoft Resilience
Em sistemas distribuídos modernos, falhas transitórias (quedas rápidas de rede ou serviços externos instáveis) são inevitáveis. A resiliência deve ser um requisito não funcional do seu projeto.
No .NET 8 e 10, a biblioteca Polly foi profundamente integrada ao ecossistema através da Microsoft.Extensions.Http.Resilience. Agora, você pode configurar políticas de Retry (tentativas) e Circuit Breaker (disjuntor) de forma nativa. O Circuit Breaker é vital: ele "abre o disjuntor" para um serviço que está falhando, evitando que sua aplicação fique travada esperando por algo que não vai responder, dando tempo para o serviço externo se recuperar.
7. O Ecossistema .NET e a Evolução Contínua
O ecossistema .NET evolui em um ritmo frenético. Enquanto escrevo, o .NET 10 já está em fase de preview. O grande risco arquitetural hoje é o débito técnico acumulado por organizações que permanecem em versões como o .NET 6 enquanto o mundo avança. Cada nova versão traz melhorias nativas de performance, redução de alocação de memória e novos recursos de linguagem que simplificam o código.
Ser um desenvolvedor sênior significa gerenciar esse débito. Manter-se atualizado não é opcional; é uma estratégia de sobrevivência. Experimente as versões preview, contribua com projetos open source e sempre questione se a forma como você escrevia código há dois anos ainda é a melhor hoje.

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